sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cartas de Liandra - 1

Belém, 25 de maio de 2015.
Nico,

Um amor de infância é extremamente forte naquele momento, mas, depois, percebemos a ingenuidade dos nossos atos. Acho que a gente se via apenas uma ou duas vezes por mês, quando eu ia para a casa da minha tia e ela me levava a sua casa, junto com a Bel, para brincarmos, mal imaginando ela, coitada, que jogávamos “3 minutos no céu”.

Tínhamos o que? Oito anos? E girar a garrafa me deixava toda nervosa, esperando que apontasse para você e juntos iríamos ficar sozinhos em uma área. Eu esperava, desde aquela época, que você me beijasse ou dissesse que me amava, boba que era, porém, você nunca os fez. Me pegava pensando várias noites o motivo de você não fazer como nos filmes de romance e me tomar nos braços com um lindo beijo de amor. Será se não gostava de mim? Ou me achava feia? Ou não tinha coragem? De fato, eu não tinha ideia.

Seu jeito era todo engraçado, por vezes machista e mandão, mas, para isso eu pensava “Ele tem esse jeito bruto, mas, o meu amor pode melhorar isso, sem que ele precise mudar e vamos ser felizes para sempre”. Eu poderia ser mais ingenua que isso? Hoje, percebo que nosso amor seria trágico, brigas frequentes e pouco carinho, tudo aquilo que eu abomino. Mas, será que você mudou? Me pergunto se você se importa mais com as pessoas e se a gente voltasse a se encontrar, poderia haver algo consistente? Me pergunto se você continua usando o “modelo careca” que eu sempre achei engraçado, mas, era divertido tocar, porque espetava os dedos fazendo cócegas.


Às vezes me pego pensando em como seriam nossos filhos – raramente, mas penso – e esses devaneios impossíveis me fazem sorrir. Espero que encontres alguém que te aceite e que tenhas uma boa vida. 

Crônica parisiense

Era um simples banco de madeira vermelha, com pés de ferro e braços quebrados, nada mais. Mas, era o meu banco de madeira vermelha. Todos os dias, às cinco da tarde, eu sento naquele banco, uma xícara de chá verde ao lado, comprada na cafeteria em frente à praça e um livro surrado nas mãos. O mesmo livro de sempre, no qual a história se passa na mesma cidade onde estou.

Vejo várias pessoas passando por ali todos os dias. Um menino correndo atrás de uma bola, um homem apressado com uma pasta nas mãos, uma turista tirando fotos da enorme torre, um casal de mãos dadas apreciando a paisagem e é isso que prende minha atenção.

As mãos juntas como se não fossem mais soltar, o andar preguiçoso como se houvesse tempo para tudo, o modo lento que os lábios se moviam soltando as palavras no ar e, por fim, um beijo na ponta do nariz e um sorriso aberto, traduzindo um leve recado.. “Eu vou te proteger”. Para mim estava claro, eles se casariam dali há algum tempo, teriam uma linda casa com varanda em frente a um campo de flores e três crianças saudáveis. Quando os filhos já estivessem crescidos, eles poderiam descansar e morreriam juntos. Mas, seu amor não iria morrer, continuaria vivo no coração de filhos e netos. E no meu também. Foi o que eu desejei a eles dois, porque todo mundo merece um amor pra vida inteira.