Belém, 25 de maio de 2015.
Nico,
Um amor de infância é extremamente forte naquele momento,
mas, depois, percebemos a ingenuidade dos nossos atos. Acho que a gente se via
apenas uma ou duas vezes por mês, quando eu ia para a casa da minha tia e ela me
levava a sua casa, junto com a Bel, para brincarmos, mal imaginando ela,
coitada, que jogávamos “3 minutos no céu”.
Tínhamos o que? Oito anos? E girar a garrafa me deixava toda
nervosa, esperando que apontasse para você e juntos iríamos ficar sozinhos em
uma área. Eu esperava, desde aquela época, que você me beijasse ou dissesse que
me amava, boba que era, porém, você nunca os fez. Me pegava pensando várias
noites o motivo de você não fazer como nos filmes de romance e me tomar nos
braços com um lindo beijo de amor. Será se não gostava de mim? Ou me achava
feia? Ou não tinha coragem? De fato, eu não tinha ideia.
Seu jeito era todo engraçado, por vezes machista e mandão,
mas, para isso eu pensava “Ele tem esse jeito bruto, mas, o meu amor pode
melhorar isso, sem que ele precise mudar e vamos ser felizes para sempre”. Eu
poderia ser mais ingenua que isso? Hoje, percebo que nosso amor seria trágico,
brigas frequentes e pouco carinho, tudo aquilo que eu abomino. Mas, será que
você mudou? Me pergunto se você se importa mais com as pessoas e se a gente
voltasse a se encontrar, poderia haver algo consistente? Me pergunto se você
continua usando o “modelo careca” que eu sempre achei engraçado, mas, era
divertido tocar, porque espetava os dedos fazendo cócegas.
Às vezes me pego pensando em como seriam nossos filhos –
raramente, mas penso – e esses devaneios impossíveis me fazem sorrir. Espero
que encontres alguém que te aceite e que tenhas uma boa vida.