domingo, 26 de julho de 2020

Sinônimo de perigo


Existe uma história de um boto que surge na água e sequestra mulheres pro fundo do rio. Muitas morrem de medo de serem levadas, mas entram nos rios mesmo assim e, pior ainda, querem ver um boto de perto.

É curioso pensar que o medo da possibilidade de ser levada, não tira dela o querer ver o tão falado boto de pertinho.. É um pouco místico, mágico, desperta curiosidades que ela nem sabia que podia ter dentro de si.

Parece um pouco com o amor... Todo mundo já ouviu uma história triste de quem sofreu por amor, de quem teve um coração quebrado, de quem ainda chora por alguém que perdeu. A gente sabe que amor é sinônimo de perigo. 

E mesmo assim, quando ele bate à nossa porta, ou quando emerge do rio, tal qual um boto-cor-de-rosa, a curiosidade prevalece. A magia do amor chama pela mulher amedrontada que se acanha por ele, mas, no fundo, no fundo, tá louca pra ser levada também. 

(Autoria do texto: Eliza Paixão, às 23:30 de uma segunda-feira de julho, navegando por um rio da Amazônia) 🌊

terça-feira, 21 de julho de 2020

Há muito tempo eu deixei de escrever. Um pedido de desculpas.

Há muito tempo eu deixei de escrever, acho que descobri o por que, então decidi começar a voltar a escrever pedindo desculpas pelos vários eus esquecidos e ignorados pelo eu que se iniciava depois de grandes decepções comigo mesmo.

Quando eu passei a entender a vida como um domínio da minha mente sobre as minhas dores e angustias? Em outras palavras, eu passei a dizer pra mim que eu estava bem, que de fato aquilo ia passar, que eu era incrível, até acreditar. Acreditei tanto que esqueci. Esqueci de cada falha, de cada tropeço, ressentimentos, pensamentos ruins, do que os meus erros me tornaram e fizeram. Eu não escrevia mais para não deixar que eles estivessem em algum lugar gravados, para que eu não tivesse a oportunidade de lembrar desse momento.

Mas o que havia realmente esquecido era que cada um desses pontos negativos estavam na minha mente, pois eu os causei, e as consequências deles eram todas minhas. Desde muito jovem. Desde quando tive medo de crescer, pois imaginava que tudo o que eu senti pequeno, eram vergonhosos. E quando isso acontece, não é a escrita que vai me fazer não saber disso... talvez os detalhes eu pudesse ter gravado.

Enfim, desculpem o texto mal escrito, mal desenvolvido. Ele não foi escrito antes, é uma emoção de agora, que eu preciso vomitar nesse espaço tão meu, tão nosso. 

Desculpa eu de anos atrás, eu te feri muito. Eu sei disso. Eu nunca vou me perdoar por te fazer chegar até aqui tão mal. Tão diferente daquele que eu sonhei que você fosse. Tão distante de ti. Espero que um dia você me perdoe e a gente consiga chegar bem em algum lugar. Hoje ainda não é esse dia. 

Um pedido de desculpas.

domingo, 19 de julho de 2020

Por quê eu não aceito o amor simples?


Nesse domingo todo mole, cheio de preguiça, me veio um pensamento aleatório sobre os amores das nossas vidas (no plural): A gente que gosta de amar, vive sempre em busca de um relacionamento que nos complete, com alguém que nos faça feliz e que fique na nossa vida pra construir um futuro.

Pois é… A questão em cima disso, é que se sempre procuro por esse amor infinito, todas as vezes que eu amo, acabo criando expectativas e ideias de que aquele é o amor certo pra minha vida. Reviro meu mundo pra poder caber no mundo da pessoa, pra eu nunca decepcioná-la e ela nunca me deixar.

Hoje, com meus jovens 22 anos na costa, penso o quanto sou jovem para estar com uma única pessoa pro resto da minha vida. Tantas experiências que eu ainda não vivi.. Tipo participar de uma suruba (brincadeira kkk [?]), viajar sozinha e conhecer pessoas em outros locais, ter uma paixão de viagem e ir embora no dia seguinte, acordar na casa de uma pessoa desconhecida depois de uma noite gostosa de sexo, coisas assim.

Tanta vida ainda pra viver pela frente e mesmo assim, a cada amor, eu imagino uma vida inteira e um futuro incrível com a pessoa, como se ela fosse a última. Não que isso seja ruim, pelo contrário, pra mim só demonstra o comprometimento que eu tenho com a pessoa pela qual estou apaixonada e quero que faça 5 filhos no meu útero (rs).

É só que chega uns momentos que bate essa reflexão sobre o tanto de coisa que eu ainda quero fazer estando solteira (sim, algumas dessas coisas eu posso fazer mesmo se estiver em um relacionamento, mas, quero fazê-las solteira???), é tanta ideia maluca que passa pela minha cabeça, sabem? Mas aí, na primeira oportunidade de me envolver sentimentalmente com alguém, lá estou eu, igual uma palhaça.

O pior de tudo nem é quando o relacionamento dá errado e termina… É o limbo que vem depois do término. Esse tempo que eu fico remoendo o que deu certo, o que deu errado, onde eu errei e o que eu poderia ter feito diferente pra ter dado certo. E nesse limbo, na maioria das vezes, eu tenho uma dificuldade enorme de me envolver com outras pessoas que sejam fáceis, não complicadas.

É tudo muito variável. Teve um pós-término meu que em 4 dias eu já tava ficando com outro(s) e foi tudo de bom, mas sabe quanto tempo eu fiquei pra conseguir superar e seguir pra outro possível envolvimento? 1 ano e 4 meses. Sabe quanto tempo eu demorei pra conseguir transar com uma pessoa depois disso? 1 ano e 6 meses.

A segunda pior parte depois desse limbo, é que eu me envolvo com gente complicada, gente difícil, gente que não me quer de primeira, sabe? Não que os seres humanos sejam fáceis, cada pessoa tem sua própria complexidade, mas, porra, eu só me apaixono por gente que claramente não tá tão afim de mim assim, enquanto outras que estão na minha eu acabo ignorando total.

É uma vontade doida de buscar o que é difícil, o que precisa de luta pra conseguir, o que precisa ser “consertado” e que é tão complexo que uma galera simplesmente desiste. Que mania é essa? Por quê eu não consigo lidar com o que é fácil? Com o que tá ali pra mim? Que dificuldade é essa de aceitar o amor simples, mas correr atrás loucamente do que me trata mal?

Enfim… É nessas horas que algumas frases me fazem pensar seriamente sobre o que eu sou e sobre como eu me enxergo, tipo aquela do livro As vantagens de ser invisível “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”. É isto.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O arco-íris do Rio Parauaú

Nas águas escuras desse rio, conheci o amor de uma deusa. Dona de olhos cansados, mas brilhantes, sedentos por uma luz, um raio de sol.

Ela me chamou de amor, me deu tudo que tinha de mais bonito dentro de si e disse "Desse jeito tu amarás o teu verdadeiro amor e assim serás feliz".

Segui a vida, amando todos que passaram por mim e guardando o que a deusa me deu para aquele único e verdadeiro amor, que o destino iria trazer.

Passou dia, passou noite e de forma tão abrupta meu amor chegou. Quebrou a porta, gritou "TE AMO", molhou meu corpo e juntou sua boca na minha.

E, numa súbita explosão, me mostrou toda sua luz, que colidiu com as águas que a deusa me deu, formando o mais belo arco-íris que o Rio Parauaú já viu... 

     - Escritas num barco dia 13/07/2020, às 21:30

terça-feira, 21 de abril de 2020

Uma saudade no meio de abril


Às vezes eu tenho a impressão de que a minha vida desandou depois que a professora Thelma foi embora.
Durante o meu terceiro ano de faculdade, eu conheci Thelma. Mas antes de falar dela, contextualizo meu terceiro ano: estava tudo um cu. Ansiedade gritando num nível muito hard, dores de cabeça terríveis, eu não conseguia me concentrar nem nas aulas que eu gostava, muito menos nas que eu odiava, tudo era muito cansativo e meu corpo só me pedia para parar...
Eu cheguei a ir na Coordenação para fazer o trancamento da minha matrícula, poucas pessoas sabem disso... Chegando lá, fui barrada porque o período de trancamento seria somente no final do semestre letivo... e tinha acabado de começar, então seriam belíssimos 5 meses pela frente aguentando aquilo, a coordenadora do setor conversou comigo e me deu um choque de realidade: Aquilo ali era o meu sonho, porque eu tava querendo desistir? Eu tava me auto-sabotando? Eu tava me impedindo de fazer o que eu gostava? É, ansiedade tem dessas coisas.
Tomei a decisão de continuar o semestre, tentar buscar ajuda em algum lugar (até voltar pra igreja eu cogitei) e, no final, passados os 5 meses eu iria avaliar de novo a situação e decidir se fazia o trancamento de matrícula ou não, sem saber que tanta coisa poderia acontecer em apenas 5 meses. A ajuda que eu tinha decidido buscar, eu encontrei dentro de um copo de vidro na mesa de um bar. Acho que esse foi um dos períodos que eu mais bebi em toda minha vida (até então) e assim comecei meu terceiro ano.
Eu conheci Thelma no finalzinho do meu segundo ano de faculdade, por causa de um grupo de amigos que eu amo muito (CATU <3), se eu me lembro bem, a primeira vez que conversamos foi em dezembro.. Ela é um anjo em forma de gente, professora de saúde mental, também formada em antropologia, decidiu fazer um atendimento com alguns alunos, um grupo de apoio universitário (ponto importante: ela era professora da UFPA e eu estudo na UEPA). Iniciativa incrível, mas, ela precisava fazer um teste antes, pra ver se suas ideias dariam certo, então selecionou à dedo alguns alunos que ela sabia que tinham dificuldades relacionadas à saúde mental, ansiedade, depressão, etc. para fazer esse experimento. Um deles sabia como eu tava fodida mentalmente, conversou com ela e pediu pra uma intrusa da UEPA participar e desse modo estava eu, num sábado de dezembro aparecendo na casa dela.
O grupo se reunia todo sábado, por cerca de 4h de tempo, a gente fazia algumas atividades, conversava e comia muito, às vezes eu sinto que Thelma queria ganhar a gente pela barriga hahahah. Enfim, nas primeiras semanas eu relutei muito, eram 2 encontros por mês e eu só ia em um, ou em nenhum, a tal da auto-sabotagem mesmo, já que eu me sentia muito bem quando estava lá com ela e até hoje não entendo como eu conseguia faltar para ficar deitada em casa.
Passadas algumas semanas depois da minha tentativa frustrada de trancar o curso, alguns dias de muita bebedeira, eu fui para um encontro do grupo experimental num sábado à tarde. Ela trouxe uma atividade pra gente fazer em que espalhou várias imagens no chão e a gente precisava escolher qual imagem se identificava mais, peguei um recorte de uma revista que aparecia um hambúrguer. A atividade envolvia bastante coisa e depois de muita conversa entre o grupo (que contava com 6 à 7 pessoas, mais ou menos) eu cheguei à uma conclusão: Eu tinha um seríssimo problema de aplicar toda minha carga emocional em vícios. Às vezes era o álcool, às vezes era comida, às vezes eram horas de estudo intenso. Seja o que fosse, eu entrava numa espiral de vício que não conseguia sair e só aquele vício me mantinha de pé.
Os encontros aos sábados com ela me fizeram conhecer coisas de mim que eu nem imaginava, me fizeram entender que o sentido da vida é não ter sentido mesmo e que a gente pode enlouquecer tentando organizar isso ou apenas aprender à viver com essa realidade. A gente falava de saúde mental, a gente falava de Deus às vezes (quando o grupo concordava, é claro), mas, principalmente, a gente falava de amor. Ao final dos 5 meses do semestre, eu nem cogitei mais trancar o curso, quando eu digo que Thelma me salvou, falo pra valer.
Depois de um relacionamento bem dolorido, de tantas mágoas, de tantos vícios, eu achava que não poderia mais amar ninguém, incluindo a mim mesma, mas esses sábados me mostraram que ainda existia muita vida pra viver. Aquele casulo que eu fechei sob o meu próprio corpo e coração na tentativa de me proteger dos baques que a vida poderia me dar ainda, eu aprendi com ela que era um erro. Apanhar da vida é necessário pra gente aprender a viver. Meu terceiro ano foi salvo porque eu apanhei da vida, mas aprendi com ela.
Num determinado momento, Thelma nos deu a notícia de que iria embora de Belém para cuidar dos pais, no Paraná, já tinha dado entrada na aposentadoria e estava organizando tudo. Meu coração apertou um pouco e eu pensei seriamente em prender ela numa caixinha aqui na cidade das mangueiras (brincadeira kkk). No fundo, no fundo, eu senti que estava pronta pra encarar o mundo, pra amar de novo, pra apanhar de novo e mesmo assim, continuar feliz. Thelma me ensinou a ser feliz de novo e eu nunca vou ter palavras pra agradecer por tudo que ela fez por mim e por meus amigos...
Levantei às 04:02, em abril de 2020, um ano depois que Thelma foi embora, porque sonhei com ela e meu coração apertou de saudade. Às vezes eu tenho a impressão de que a minha vida desandou depois que a professora Thelma foi embora... Mas, na verdade, a minha vida mudou pra melhor depois que a conheci e hoje eu sou uma Eliza diferente, por causa dela. Estou com saudades, mas, estou grata também.