Às vezes eu
tenho a impressão de que a minha vida desandou depois que a professora Thelma
foi embora.
Durante o
meu terceiro ano de faculdade, eu conheci Thelma. Mas antes de falar dela,
contextualizo meu terceiro ano: estava tudo um cu. Ansiedade gritando num nível
muito hard, dores de cabeça terríveis, eu não conseguia me concentrar nem nas
aulas que eu gostava, muito menos nas que eu odiava, tudo era muito cansativo e
meu corpo só me pedia para parar...
Eu cheguei
a ir na Coordenação para fazer o trancamento da minha matrícula, poucas pessoas
sabem disso... Chegando lá, fui barrada porque o período de trancamento seria
somente no final do semestre letivo... e tinha acabado de começar, então seriam
belíssimos 5 meses pela frente aguentando aquilo, a coordenadora do setor
conversou comigo e me deu um choque de realidade: Aquilo ali era o meu sonho,
porque eu tava querendo desistir? Eu tava me auto-sabotando? Eu tava me
impedindo de fazer o que eu gostava? É, ansiedade tem dessas coisas.
Tomei a
decisão de continuar o semestre, tentar buscar ajuda em algum lugar (até voltar
pra igreja eu cogitei) e, no final, passados os 5 meses eu iria avaliar de novo
a situação e decidir se fazia o trancamento de matrícula ou não, sem saber que
tanta coisa poderia acontecer em apenas 5 meses. A ajuda que eu tinha decidido
buscar, eu encontrei dentro de um copo de vidro na mesa de um bar. Acho que
esse foi um dos períodos que eu mais bebi em toda minha vida (até então) e
assim comecei meu terceiro ano.
Eu conheci
Thelma no finalzinho do meu segundo ano de faculdade, por causa de um grupo de
amigos que eu amo muito (CATU <3), se eu me lembro bem, a primeira vez que
conversamos foi em dezembro.. Ela é um anjo em forma de gente, professora de
saúde mental, também formada em antropologia, decidiu fazer um atendimento com
alguns alunos, um grupo de apoio universitário (ponto importante: ela era professora
da UFPA e eu estudo na UEPA). Iniciativa incrível, mas, ela precisava fazer um
teste antes, pra ver se suas ideias dariam certo, então selecionou à dedo
alguns alunos que ela sabia que tinham dificuldades relacionadas à saúde
mental, ansiedade, depressão, etc. para fazer esse experimento. Um deles sabia
como eu tava fodida mentalmente, conversou com ela e pediu pra uma intrusa da
UEPA participar e desse modo estava eu, num sábado de dezembro aparecendo na
casa dela.
O grupo se
reunia todo sábado, por cerca de 4h de tempo, a gente fazia algumas atividades,
conversava e comia muito, às vezes eu sinto que Thelma queria ganhar a gente
pela barriga hahahah. Enfim, nas primeiras semanas eu relutei muito, eram 2
encontros por mês e eu só ia em um, ou em nenhum, a tal da auto-sabotagem
mesmo, já que eu me sentia muito bem quando estava lá com ela e até hoje não
entendo como eu conseguia faltar para ficar deitada em casa.
Passadas
algumas semanas depois da minha tentativa frustrada de trancar o curso, alguns
dias de muita bebedeira, eu fui para um encontro do grupo experimental num
sábado à tarde. Ela trouxe uma atividade pra gente fazer em que espalhou várias
imagens no chão e a gente precisava escolher qual imagem se identificava mais,
peguei um recorte de uma revista que aparecia um hambúrguer. A atividade
envolvia bastante coisa e depois de muita conversa entre o grupo (que contava com
6 à 7 pessoas, mais ou menos) eu cheguei à uma conclusão: Eu tinha um seríssimo
problema de aplicar toda minha carga emocional em vícios. Às vezes era o
álcool, às vezes era comida, às vezes eram horas de estudo intenso. Seja o que
fosse, eu entrava numa espiral de vício que não conseguia sair e só aquele
vício me mantinha de pé.
Os
encontros aos sábados com ela me fizeram conhecer coisas de mim que eu nem
imaginava, me fizeram entender que o sentido da vida é não ter sentido mesmo e
que a gente pode enlouquecer tentando organizar isso ou apenas aprender à viver
com essa realidade. A gente falava de saúde mental, a gente falava de Deus às
vezes (quando o grupo concordava, é claro), mas, principalmente, a gente falava
de amor. Ao final dos 5 meses do semestre, eu nem cogitei mais trancar o curso,
quando eu digo que Thelma me salvou, falo pra valer.
Depois de
um relacionamento bem dolorido, de tantas mágoas, de tantos vícios, eu achava
que não poderia mais amar ninguém, incluindo a mim mesma, mas esses sábados me
mostraram que ainda existia muita vida pra viver. Aquele casulo que eu fechei
sob o meu próprio corpo e coração na tentativa de me proteger dos baques que a
vida poderia me dar ainda, eu aprendi com ela que era um erro. Apanhar da vida
é necessário pra gente aprender a viver. Meu terceiro ano foi salvo porque eu
apanhei da vida, mas aprendi com ela.
Num
determinado momento, Thelma nos deu a notícia de que iria embora de Belém para
cuidar dos pais, no Paraná, já tinha dado entrada na aposentadoria e estava
organizando tudo. Meu coração apertou um pouco e eu pensei seriamente em
prender ela numa caixinha aqui na cidade das mangueiras (brincadeira kkk). No
fundo, no fundo, eu senti que estava pronta pra encarar o mundo, pra amar de
novo, pra apanhar de novo e mesmo assim, continuar feliz. Thelma me ensinou a
ser feliz de novo e eu nunca vou ter palavras pra agradecer por tudo que ela
fez por mim e por meus amigos...
Levantei às
04:02, em abril de 2020, um ano depois que Thelma foi embora, porque sonhei com
ela e meu coração apertou de saudade. Às vezes eu tenho a impressão de que a
minha vida desandou depois que a professora Thelma foi embora... Mas, na verdade,
a minha vida mudou pra melhor depois que a conheci e hoje eu sou uma Eliza
diferente, por causa dela. Estou com saudades, mas, estou grata também.